
20 janeiro 2008
Argumentação, Verdade e Ser
A argumentação, além das utilidades que já estudámos, serve ainda um outro fim muito importante: serve para pôr à prova as ideias que temos e fazer avançar o conhecimento. Dada a dificuldade humana em encontrar a verdade, o confronto de ideias (argumentos) e a possibilidade de os nossos argumentos poderem ser refutados leva-nos a ter de fundamentar bem as nossas teses, logo, a ser cautelosos quanto ao que afirmamos.É certo que nem sempre as pessoas estão interessadas em defender a verdade, seja por ignorância, seja por má vontade. E isto leva a disputas e a controvérsias que ocorreram já na Grécia antiga entre sofistas e filósofos, como se pode ver no diálogo Górgias, onde Platão põe Sócrates a discutir e ridicularizar os seus adversários de debate. E a razão dessa divergência é agora fácil de compreender: enquanto para os sofistas qualquer tese (opinião) era, em princípio defensável, para Platão só o verdadeiro conhecimento era digno de ser defendido. Para isso, era necessário que Platão tivesse uma teoria consistente sobre a verdade, o conhecimento, a realidade, etc. Com efeito, tinha; e é uma teoria de tal modo consistente que tem sido respeitada ao longo dos séculos. Um filósofo do séc. XX, famoso matemático e colega de trabalho de Bertrand Russel, de seu nome Whitehead, disse que «a filosofia ocidental são notas de rodapé na Filosofia de Platão».
Qual é essa teoria? Resumidamente podemos dizer que a filosofia de Platão faz duas grandes distinções, correlativas uma da outra, entre o plano ontológico (ser) e o plano gnosiológico (conhecimento). Distingue, por um lado, entre a ilusão (mundo visível) e a realidade (mundo inteligível), e, por outro, entre o erro (opinião) e o conhecimento (sofia).
Segundo Platão, há vários níveis de realidade (uma sombra é menos real do que um objecto físico, e este é menos real do que uma forma pura), e uma suposição é menos «verdadeira» que uma crença; do mesmo modo, uma crença é menos verdadeira do que um conhecimento científico. Para este filósofo, a investigação começa pela recusa do mundo aparente (que é construído em nós a partir das informações fornecidas pelos sentidos), e pelo desenvolvimento de capacidades intelectuais que nos permitam «ver» um mundo invisível aos sentidos: um mundo inteligível, só visível à razão. Este caminho de descoberta é simultaneamente um caminho de auto-aperfeiçoamento do indivíduo e um caminho de descoberta da realidade.O conhecimento da verdade é, afinal, o conhecimento da realidade, de tal modo que verdade e realidade acabam por ser sinónimos.
A realidade é, então, segundo Platão, formada pelas estruturas inteligíveis (racionais) da realidade, por aquilo que faz com que a matéria dos objectos obtenha uma determinada organização. Os próprios objectos, a que teríamos a tentação de chamar «reais», seriam apenas «cópias» desses modelos a que ele chamou eidos ou formas puras e só poderiam ser vistos através da clara visão da razão.
Isto não significa que Platão se desinteressasse dos assuntos mais «mundanos» da cidade onde vivia. Daí que nas suas obras encontremos muitos diálogos sobre a justiça e a organização da cidade, o melhor tipo de governo, etc. O que acontece é que as preocupações de Platão com a Política, com o Conhecimento, com a Moral, com arte, etc., tinham sempre como objectivo criar condições para a descoberta da verdade e para a prática do Bem. Para Platão, o Bem é o aperfeiçoamento dos seres humanos através do desenvolvimento da consciência e da Ciência.
Isto faz aumentar a responsabilidade do sábio: uma vez que conhece, tem também o dever de ajudar os seus irmãos humanos a libertar-se da ignorância. Platão considerava que «o rei deveria ser filósofo e o filósofo deveria ser rei» porque, acima de tudo, o governo da cidade (a política) deveria ser dirigido por pessoas sábias. É neste contexto que se devem tentar compreender as discussões sobre a retórica, e as críticas que Platão dirigiu aos sofistas, pois, para ele, nem todas as opiniões são defensáveis, e a argumentação deve estar ao serviço de um ideal mais elevado, fundamentado num conhecimento verdadeiro do que é a realidade e de quais são os fins que dão sentido à existência humana.
É também por isso que Platão é um autor que ainda hoje pode ajudar-nos a pensar em que sentido e para que fins devemos nós, humanos do séc. XXI, utilizar a técnica e a Ciência.
705 Azul, Vários autores, Texto Editora
14 janeiro 2008
21 dezembro 2007
11 dezembro 2007
Os sofistas
Foram grandes e inevitáveis as transformações que se deram no seio da cidade de Atenas. Eram constantemente postos em confronto os novos valores e os tradicionais.Um dos grandes problemas sentidos era relativo à educação dos jovens que, num futuro breve, teriam de assumir a govemação.
«Qual era, de facto, o modo de formação tradicional? Ensinavam-se os jovens a ser bons cavaleiros, homens piedosos, respeitadores das divindades e da recordação dos antepassados.
Isso agora não basta! É preciso saber falar. A palavra é agora a técnica das técnicas, aquela que permite a cada um - na assembleia, nos tribunais - fazer valer o seu ponto de vista. É graças a ela que o cidadão pode defender a sua posição e a sua independência e assim impor-se na cidade.
A civilização da palavra - é assim que Aristófanes chama ao novo ensino. Abrem-se escolas pagas, dirigidas por metecos, as quais suscitam uma afluência considerável. Os mais ilustres destes mestres - Górgias, Protágoras, Hípias - não têm outro programa senão ensinar os seus alunos a falar bem acerca de tudo e de não importa o quê, a defender com persuasão não importa qual causa.
Aparentemente, este ensino não tem qualquer conteúdo; ele não impõe senão um enciclopedismo vago e engenhoso. Na realidade, ele provoca uma mutação importante: as assembleias municipais, a Pnice, onde se reúne a assembleia popular, os mercados onde cada um discute livremente aquilo que quiser, os tribunais - todos eles constituem lugares novos, onde o cidadão pobre, sob a garantia da lei, pode atacar o rico ou o nobre, não para o espoliar mas para exigir que ele partilhe os seus privilégios para o maior bem de todos [.. .]» (Chatelet)
Esta nova educação que se faz sentir vai ser preenchida pelos Sofistas, que não eram mais do que homens instruídos que têm conhecimento a vários níveis do saber. Estes não só se diziam possuidores de grande sabedoria como se diziam ser capazes de a transmitir aos outros. Interessavam-se muito pela linguagem, sobretudo pela gramática e a semântica, pois sabiam a importância que as palavras ocupam no discurso e que o encadeamento lógico das ideias é fundamental. Mas para ensinar levavam os seus honorários e esta é uma das grandes críticas que Platão lhes dirige.
Assim, iam de cidade em cidade vendendo o seu saber.
«Os sofistas são professores de artes úteis: ensinam técnicas. Eles apresentam-se como possuindo o conhecimento de tudo aquilo que é útil ao homem e vendem esse saber a troco de dinheiro.
No primeiro lugar dessas técnicas ou artes úteis brilha a retórica, a arte ou habilidade de fazer triunfar uma opinião, qualquer que ela seja. Os sofistas são retóricos à procura de sucesso, não são filósofos à procura de sabedoria.
Estes professores não se preocupam com a verdade de uma tese, nem é isso que eles ensinam. Eles ensinam a arte de fazer triunfar uma tese: a arte de persuadir, de vencer, de triunfar.
Trata-se de uma espécie de desporto intelectual, de competições, de jogos oratórios: o auditório é um júri que concede os prémios. Os sofistas ensinam a arte de convencer o auditório e ganhar esses prémios.»
(J.Vilatoux)
Platão fez igualmente uma crítica cerrada a esta «arte», como os sofistas lhe chamavam:
«A crítica da sofística - a sombra negra de Platão - enche metade da sua obra. 0 sofista, para ele, é o homem que ensina a técnica - e a moral - do sucesso, do gozo, da afirmação de si; que nega as noções, profundamente solidárias, da verdade e do bem objectivos.
0 ensino sofístico forma o orador público, essa falsificação do homem de Estado verdadeiro; ou seja, o homem capaz de arrastar a multidão com argumentos baseados não no saber - e como o poderia ele fazer, ele que nada sabe, que troça do saber e contesta a sua existência? - mas na verosimilhança e na paixão. O orador público -o político -é o homem da ilusão, oposta à realidade, o homem da mentira, oposta à verdade.
0 sofista é a falsificação do verdadeiro filósofo, como o tirano é a falsificação do verdadeiro chefe de Estado. Ainda mais: a tirania e a sofística são solidárias, como o são, por seu lado, a filosofia e o reino da justiça na Cidade.
Parece-nos que não se compreenderá nada da atitude política de Platão se não o virmos descortinando no horizonte o espectro horrendo da tirania. Compreender-se-á mal mesmo a sua atitude filosófica se não se tiver em conta o facto de que, para ele, a tirania e a sofística são solidárias e que é o sofista que prepara o caminho ao tirano.» (Koyré)
Platão, Górgias, Fernanda Carrilho
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