26 novembro 2009

Compatibilismo

Se alguém prediz que eu vou fazer alguma coisa, posso muito bem não fazer essa coisa. Ora bem, este tipo de opção não está à disposição dos glaciares que se movem pelas montanhas abaixo ou das bolas que rolam em planos inclinados, ou dos planetas que se movem em torno das suas órbitas elípticas.
Estamos perante um enigma filosófico característico. Por um lado, um conjunto de argumentos muito poderosos força-nos à conclusão de que a vontade livre não existe no Universo. Por outro, uma série de argumentos poderosos baseados em factos da nossa própria experiência inclina-nos para a conclusão de que deve haver alguma liberdade da vontade, porque aí todos a experimentamos em todo o tempo.
Há uma solução corrente para este enigma filosófico. Segundo essa solução, a vontade livre e o determinismo são perfeitamente compatíveis entre si. Naturalmente, tudo no Mundo é determinado mas, apesar de tudo, algumas acções humanas são livres. Dizer que são livres não é negar que sejam determinadas; é afirmar que não são constrangidas. Não somos forçados a fazê-las: assim, por exemplo, se um homem é forçado a fazer alguma coisa porque lhe apontam uma arma, ou se sofre de alguma compulsão psicológica, então, a sua conduta é genuinamente não livre. Mas se, por outro lado, ele age livremente, se age, como dizemos, por sua livre vontade, então, o seu comportamento é livre. Claro está, é também completamente determinado, uma vez que cada aspecto do seu comportamento é determinado pelas forças físicas que operam sobre as partículas que compõem o seu corpo, tal como operam sobre todos os corpos no universo. Assim, a conduta livre existe, mas é apenas um cantinho do Mundo determinado — é este canto do comportamento humano determinado onde certos tipos de força e de compulsão estão ausentes.
Ora bem, porque esta concepção afirma a compatibilidade da vontade livre e do determinismo recebe habitualmente o nome de «compatibilismo». (…)

John Searle, Mente Cérebro e Ciência

21 novembro 2009

Rede Conceptual da Acção Humana - Apresentação "Acção e Explicação"

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Porque negam os deterministas radicais a liberdade?


O problema acerca da existência de liberdade humana pode ter a seguinte formulação preliminar. Os desejos e crenças de uma pessoa (o seu comportamento, portanto) é causado por coisas que estão fora do seu controle. Não escolheu livremente os seus genes ou a sequência de circunstâncias em que cresceu. Se não os escolheu livremente, porquê afirmar que o seu comportamento provém de uma escolha livre da sua parte? Como tornar essa pessoa responsável por acções causadas por acontecimentos sobre os quais não detém qualquer controle? Essa pessoa não parece mais livre do que um computador; sucede que um computador age como age porque foi programado para o fazer.
Outra maneira de encarar o problema consiste em notar uma característica presente no quadro causal acima indicado. Suponha-se que o nosso comportamento é o produto das nossas crenças e desejos tal como o comportamento do computador resulta de um programa. Há uma característica da situação em que o computador se encontra que parece caracterizar a situação em que nos encontramos. Conforme o programa, o computador pode comportar-se de maneira diferente. Suponha-se que alguém programou um computador para somar dois números. Isto significa que se os dados de partida forem 7 e 5, o resultado só pode ser 12. O computador não pode agir de outra maneira.
Será que, a este respeito, somos como os computadores? Dados os desejos e crenças que actualmente temos, não será inevitável que façamos precisamente o que fazemos? As nossas crenças e desejos deixam em aberto o que fazemos tanto quanto um programa de computador deixa em aberto o que o computador é capaz de fazer. Este facto acerca do computador — e acerca de nós próprios caso sejamos como o computador — parece implicar que não somos livres. A razão é que se uma acção foi praticada livremente, seria possível ao agente agir de modo diverso. Se é livremente que levo aos lábios uma chávena de chá, deveria ter sido possível não o fazer. Mas, dadas as minhas crenças e desejos, não podia ter deixado de levar aos lábios a chávena de chá. As nossas acções são as consequências inevitáveis das mentes que possuímos, como o comportamento do computador é a consequência do seu programa. (...)

Elliot Sober



Tradução de Paulo RuasCore Questions in Philosophy (Prentice-Hall, 2001).



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19 novembro 2009

Assim foi o Dia Mundial da Filosofia na nossa escola!




O testemunho pessoal ou documental de homens (infelizmente muitos mais homens do que mulheres) que, com uma atitude verdadeiramente crítica e filosófica, dedicaram (e por vezes até perderam) uma vida inteira à interrogação, ao questionamento de problemas que foram e continuam a ser a essência da vida humana e do mundo em que vivemos deve suscitar em nós uma grande admiração. Pitágoras, Sócrates, Aristóteles, Descartes, Marx, Nietzshe, Sartre e tantos outros filósofos fizeram o mundo "pular e avançar" e legaram um património de conhecimento incalculável para a humanidade que não podemos desestimar. É assim a Filosofia. Incompreendida por uns, menosprezada por outros mas, diga-se em abono da verdade, valorizada pelos mais sensatos. Por aqueles que consideram que a filosofia é não só um, entre muitos outros, modos de o homem interpertar a realidade, o mundo, mas também de o transformar. Foi esse o apelo que fez Karl Marx há mais de 100 anos: "Os filósofos até agora limitaram-se a interpretar o mundo. De agora em diante é preciso, pelo contrário, transformá-lo".
É este sentimento de que a filosofia "não deixa tudo tal e qual" que pode ficar na comemoração do Dia Mundial da Filosofia na nossa escola. Depois de um contacto (embora generalista) com o pensamento de muitos filósofos, depois de trazermos a filosofia para a rua, de "obrigarmos" colegas e professores a pensar porque é que "O mundo sensível é uma ilusão" (Parménides) ou porque é que "Deus está morto" (Nietzshe) ou ainda porque é que "Cada homem deve inventar o seu caminho" (Sartre) há que vestir genuinamente a camisola da filosofia. Se o fizermos teremos, no futuro, um mundo melhor!
Obrigado a todos os alunos e professores que colaboraram na iniciativa. Aqui ficam algumas fotos.
Sérgio Cortinhas