Que sentido devo dar à minha vida?
Devo seguir a ética deontológica de Kant ou a ética utilitarista de Stuart Mill?
O PÚBLICO faz 20 anos e traz aos seus leitores 20 livros que mudaram o mundo. Manifestos, tratados, ensaios, obras de inspiração religiosa ou filosófica, estes livros mudaram o curso da História e todos eles permanecem como obras fundadoras do pensamento moderno. A colecção de livros inclui algumas das mais obras filosóficas. Foi lançada a 11 de Fevereiro e termina a 24 de Junho.
“Os críticos do utilitarismo raramente têm a justiça de reconhecer: que a felicidade que forma o padrão utilitarista sobre o que está certo na conduta não é a felicidade do próprio agente, mas a de todos os envolvidos. Quanto à escolha entre a sua própria felicidade e a felicidade dos outros, o utilitarismo exige que ele seja tão estritamente imparcial como um espectador benevolente e desinteressado. Na regra de ouro de Jesus de Nazaré lemos todo o espírito da ética da utilidade. Tratar os outros como queremos que nos tratem e amar o nosso próximo como a nós próprios constituem a perfeição ideal da moral utilitarista. Como meio de fazer a maior aproximação possível a este ideal, a utilidade prescreve, em primeiro lugar, que as leis e estruturas sociais coloquem tanto quanto possível a felicidade ou (como se lhe pode chamar para falar de maneira prática) o interesse de qualquer indivíduo em harmonia com o todo; em segundo lugar, que a educação e a opinião, que têm um poder tão vasto sobre o carácter humano, devem ser usadas para estabelecer na mente de todos os indivíduos uma associação indissolúvel entre a sua própria felicidade e o bem do todo, especialmente entre a sua própria felicidade e a prática daqueles modos de conduta, negativos e positivos, que a consideração pela felicidade universal prescreve, não só de modo a que estes possam ser incapazes de conceber consistentemente a possibilidade da felicidade para si próprios a par de uma conduta oposta ao bem geral, mas também de modo a que um impulso directo para promover o bem geral possa ser em todos um dos motivos habituais das acções, e que os sentimentos ligados a isto possam ocupar um lugar amplo e proeminente na existência sensível de qualquer ser humano.
Estamos enganados acerca da moral. Ela não existe basicamente para punir, para reprimir, para condenar. Para isso há tribunais, polícias, prisões, e ninguém os confunde com a moral. Sócrates morreu na prisão, sendo todavia mais livre que os seus juízes. É talvez aqui que a filosofia começa. É aqui que a moral começa, para cada qual, e recomeça sempre: onde nenhuma punição é possível, onde nenhuma repressão é eficaz, onde nenhuma condenação, pelo menos exterior, é necessária. A moral começa onde nós somos livres: ela é a própria liberdade, quando esta se julga e se dirige.

O Doutor Pedro Galvão é Investigador no Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, onde desenvolve um projecto de pós-doutoramento sobre identidade pessoal e o mal de matar. É autor do livro “Do Ponto de Vista do Universo” e de diversos artigos de ética filosófica, publicados em revistas nacionais e internacionais. Organizou o livro “A Ética do Aborto”, bem como edições portuguesas dos clássicos Utilitarismo, de J. S. Mill, e Fundamentação da Metafísica dos Costumes, de Immanuel Kant. É também um dos autores dos manuais “A Arte de Pensar” e de outras publicações didácticas. Está a organizar um livro sobre o problema dos direitos dos animais.