É, incontestavelmente, uma das figuras mais proeminentes da história do
pensamento humano. Foi matemático e foi, sobretudo, um grande
filósofo, tendo sido considerado o pai da filosofia moderna. Refiro-me a Descartes
que viveu apenas 54 anos, mas teve tempo
de viajar e aprender por muitos países da europa, num tempo e sociedade ainda
tolhida pelo feudalismo, por regimes políticos absolutistas onde a liberdade, a
criatividade e a descoberta eram ainda heresias sufocadas por uma Igreja
Católica inquisitória que não olhava a meios para atingir os seus fins
“sagrados”. É o único filósofo que se manteve, nos últimos 20 anos,
insubstituível nos programas de filosofia do Ensino Secundário. Muitas vezes me
interrogo porque é que filósofos como Descartes se mantêm como referências do
conhecimento humano durante séculos (Descartes viveu entre 1596 e 1650). No
entanto, há que reconhecer que além do seu importante contributo para
matemática, a filosofia e a ciência Descartes teve outro mérito não menos
importante: quis, no século XVII, reformar ou refundar todo o conhecimento
humano. Este assentava em princípios escolásticos da idade média onde o
espírito científico ou de investigação eram substituídos pelo ensino retórico e
livresco. Descartes percebeu que, naquele tempo, era fundamental demolir o
velho saber e reconstruir um “novo edifício do conhecimento” assente em bases
sólidas. Para essa empreitada considerou fundamental como princípio
metodológico a “dúvida” levada até às últimas consequências, sendo por isso
considerada uma dúvida hiperbólica que punha em causa não só as crenças mais
básicas do seu tempo mas também, por exemplo, a existência do mundo físico e, inclusivamente,
a do próprio Descartes.
22 fevereiro 2013
08 janeiro 2013
Os Sofistas
Foram
grandes e inevitáveis as transformações que se deram no seio da cidade de
Atenas. Eram constantemente postos em confronto os novos valores e os
tradicionais.
Um dos
grandes problemas sentidos era relativo à educação dos jovens que, num futuro
breve, teriam de assumir a govemação.
«Qual
era, de facto, o modo de formação tradicional? Ensinavam-se os jovens a ser
bons cavaleiros, homens piedosos, respeitadores das divindades e da
recordação dos antepassados.
Isso
agora não basta! É preciso saber falar. A palavra é agora a técnica das
técnicas, aquela que permite a cada um - na assembleia, nos tribunais - fazer
valer o seu ponto de vista. É graças a ela que o cidadão pode defender a sua
posição e a sua independência e assim impor-se na cidade.
A
civilização da palavra - é assim que Aristófanes chama ao novo ensino.
Abrem-se escolas pagas, dirigidas por metecos, as quais suscitam uma afluência
considerável. Os mais ilustres destes mestres - Górgias, Protágoras, Hípias -
não têm outro programa senão ensinar os seus alunos a falar bem acerca de tudo
e de não importa o quê, a defender com persuasão não importa qual causa.
Aparentemente,
este ensino não tem qualquer conteúdo; ele não impõe senão um enciclopedismo
vago e engenhoso. Na realidade, ele provoca uma mutação importante: as
assembleias municipais, a Pnice, onde se reúne a assembleia popular, os
mercados onde cada um discute livremente aquilo que quiser, os tribunais -
todos eles constituem lugares novos, onde o cidadão pobre, sob a garantia da
lei, pode atacar o rico ou o nobre, não para o espoliar mas para exigir que ele
partilhe os seus privilégios para o maior bem de todos [.. .]» (Chatelet)
Esta nova
educação que se faz sentir vai ser preenchida pelos Sofistas, que não eram mais
do que homens instruídos que têm conhecimento a vários níveis do saber. Estes
não só se diziam possuidores de grande sabedoria como se diziam ser capazes de
a transmitir aos outros. Interessavam-se muito pela linguagem, sobretudo pela
gramática e a semântica, pois sabiam a importância que as palavras ocupam no
discurso e que o encadeamento lógico das ideias é fundamental. Mas para ensinar
levavam os seus honorários e esta é uma das grandes críticas que Platão lhes
dirige.
Assim, iam de cidade em
cidade vendendo o seu saber.
«Os
sofistas são professores de artes úteis: ensinam técnicas. Eles
apresentam-se como possuindo o conhecimento de tudo aquilo que é útil
ao homem e vendem esse saber a troco de dinheiro.
No
primeiro lugar dessas técnicas ou artes úteis brilha a retórica, a arte
ou habilidade de fazer triunfar uma opinião, qualquer que ela seja. Os
sofistas são retóricos à procura de sucesso, não são filósofos
à procura de sabedoria.
Estes
professores não se preocupam com a verdade de uma tese, nem é isso que eles
ensinam. Eles ensinam a arte de fazer triunfar uma tese: a arte de
persuadir, de vencer, de triunfar.
Trata-se
de uma espécie de desporto intelectual, de competições, de jogos
oratórios: o auditório é um júri que concede os prémios. Os sofistas ensinam a
arte de convencer o auditório e ganhar esses prémios.»
(J.Vilatoux)
Platão
fez igualmente uma crítica cerrada a esta «arte», como os sofistas lhe
chamavam:
«A
crítica da sofística - a sombra negra de Platão - enche metade da sua obra. 0
sofista, para ele, é o homem que ensina a técnica - e a moral - do sucesso, do
gozo, da afirmação de si; que nega as noções, profundamente solidárias, da
verdade e do bem objectivos.
0 ensino
sofístico forma o orador público, essa falsificação do homem de Estado verdadeiro;
ou seja, o homem capaz de arrastar a multidão com argumentos baseados não no
saber - e como o poderia ele fazer, ele que nada sabe, que troça do saber e
contesta a sua existência? - mas na verosimilhança e na paixão. O orador
público -o político -é o homem da ilusão, oposta à realidade, o homem da
mentira, oposta à verdade.
0 sofista
é a falsificação do verdadeiro filósofo, como o tirano é a falsificação do
verdadeiro chefe de Estado. Ainda mais: a tirania e a sofística são solidárias,
como o são, por seu lado, a filosofia e
o reino da justiça na Cidade.
Parece-nos
que não se compreenderá nada da atitude política de Platão se não o virmos
descortinando no horizonte o espectro horrendo da tirania. Compreender-se-á
mal mesmo a sua atitude filosófica se não se tiver em conta o facto de que,
para ele, a tirania e a sofística são solidárias e que é o sofista que prepara
o caminho ao tirano.» (Koyré)
Platão, Górgias, Fernanda
Carrilho
01 novembro 2012
No pensar é que está o ganho!
«Pensar», respondi eu. Franziram o nariz. Perguntavam-me se veria algum caminho para a resolução das crises que nos assolam. As crises que por aí andam a torturar-nos a felicidade são de índoles várias. Temos a crise de valores, a crise económica, a crise política, a crise de fé, a crise de afectos. Todas elas estão relacionadas entre si e conspiram para nos atazanar o juízo. Daí, talvez que a urgência da pergunta esperasse da resposta uma solução concreta, prática, rápida.
A minha resposta era o oposto. Não por embirração, mas por convicção. Estará subvalorizada a importância do pensamento crítico, estruturado e criativo na resolução dos problemas que nos afligem. Talvez se deva ao ritmo frenético a que vivemos e que obriga à tomada de decisões imediata, que resulta, frequentemente, numa tomada de decisões irreflectida. Haverá, pois, quem valorize mais a acção, mas tenho para mim que acção sem pensamento que a sustente é tão estéril quanto o pensamento que não gera acção.
(...)
O importante é deixarmos as certezas que tínhamos de lado e darmo-nos à interrogação. Não o poderemos fazer sozinhos, claro. Devemos acompanhar-nos de bons mestres. Os mais importantes são os livros. Mas todas as formas artísticas ajudam a desarranjar a mente para que a possamos voltar a arranjar depois. Será por isso que os inimigos do livre pensamento tanto tentam apequenar as artes e a cultura.
(Parte de texto de Ana Bacalhau publicado no Diário de Notíciasi)
01 outubro 2012
O que é a validade de um argumento?
A validade tem a ver com o seguinte:
ex.
Com a relação entre premissas e conclusão: num argumento
válido premissas sustentam, apoiam ou justificam logicamente uma conclusão;
Com a relação entre o
valor de verdade das premissas e o valor de verdade da conclusão:
Um argumento válido é aquele em que se as premissas fossem
verdadeiras e houvesse uma ligação logicamente correta, a conclusão seria
necessariamente verdadeira (é impossível ser falsa – VALIDADE DEDUTIVA).
Todos os abdus (A) são zeblins (B)
Imal(C) é um abdu (A)
Logo, Imal (C) é um zeblim (B)
2. Um argumento válido é aquele em que se as premissas
fossem verdadeiras e houvesse uma ligação logicamente correta, a conclusão
seria muito provavelmente verdadeira
(é improvável
mas não impossível ser falsa – VALIDADE INDUTIVA).
ex.
Todos os cisnes observados até hoje são brancos
Logo, todos os cisnes
são brancos
09 junho 2012
Seremos bestas?
Uma célebre frase do Filósofo grego Aristóteles
diz que “o homem é por natureza um animal
político”. Pretendia este pensador salientar que faz parte da natureza
humana viver e participar num estado e numa sociedade política. Pretendia
também Aristóteles chamar atenção para a inevitalidade da ligação e integração
do ser humano no Estado chegando a afirmar que nenhum homem se consegue colocar
à margem do sistema social/político. Quem vivesse à margem do estado e do
sistema social/político ou seria um Deus ou uma besta. Como explicar então que,
sendo vítimas de um sistema social/político onde a ética, a justiça, a
equidade, a solidariedade, a transparência, a verdade e o respeito são pura ficção,
continuemos alheados da participação cívica e política? Como explicar a nossa
inércia cívica, estando conscientes que essa atitude tem permitido que dezenas
de responsáveis políticos/económicos/institucionais e seus correligionários
continuem a levar o país para o abismo? Como explicar o nosso alheamento face à
participação no sistema político e, sobretudo, face aos partidos que são o
pilar (infelizmente frágil) da nossa democracia? Ora, aceitando que Aristóteles
tem alguma razão, aceitando que não somos deuses, pergunto: seremos bestas?
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