22 fevereiro 2013

Descartes


É, incontestavelmente, uma das figuras mais proeminentes da história do pensamento humano. Foi matemático e foi, sobretudo, um grande filósofo, tendo sido considerado o pai da filosofia moderna. Refiro-me a Descartes que viveu apenas 54  anos, mas teve tempo de viajar e aprender por muitos países da europa, num tempo e sociedade ainda tolhida pelo feudalismo, por regimes políticos absolutistas onde a liberdade, a criatividade e a descoberta eram ainda heresias sufocadas por uma Igreja Católica inquisitória que não olhava a meios para atingir os seus fins “sagrados”. É o único filósofo que se manteve, nos últimos 20 anos, insubstituível nos programas de filosofia do Ensino Secundário. Muitas vezes me interrogo porque é que filósofos como Descartes se mantêm como referências do conhecimento humano durante séculos (Descartes viveu entre 1596 e 1650). No entanto, há que reconhecer que além do seu importante contributo para matemática, a filosofia e a ciência Descartes teve outro mérito não menos importante: quis, no século XVII, reformar ou refundar todo o conhecimento humano. Este assentava em princípios escolásticos da idade média onde o espírito científico ou de investigação eram substituídos pelo ensino retórico e livresco. Descartes percebeu que, naquele tempo, era fundamental demolir o velho saber e reconstruir um “novo edifício do conhecimento” assente em bases sólidas. Para essa empreitada considerou fundamental como princípio metodológico a “dúvida” levada até às últimas consequências, sendo por isso considerada uma dúvida hiperbólica que punha em causa não só as crenças mais básicas do seu tempo mas também, por exemplo, a existência do mundo físico e, inclusivamente, a do próprio Descartes. 

08 janeiro 2013

Os Sofistas


Foram grandes e inevitáveis as transformações que se deram no seio da cidade de Atenas. Eram constantemente postos em confronto os novos valores e os tradicionais.
Um dos grandes problemas sentidos era relativo à educação dos jovens que, num futuro breve, teriam de assumir a govemação.
«Qual era, de facto, o modo de formação tradi­cional? Ensinavam-se os jovens a ser bons cava­leiros, homens piedosos, respeitadores das divin­dades e da recordação dos antepassados.
Isso agora não basta! É preciso saber falar. A palavra é agora a técnica das técnicas, aquela que permite a cada um - na assembleia, nos tribunais - fazer valer o seu ponto de vista. É graças a ela que o cidadão pode defender a sua posição e a sua independência e assim impor-se na cidade.
A civilização da palavra - é assim que Aristó­fanes chama ao novo ensino. Abrem-se escolas pagas, dirigidas por metecos, as quais suscitam uma afluência considerável. Os mais ilustres destes mestres - Górgias, Protágoras, Hípias - não têm outro programa senão ensinar os seus alunos a falar bem acerca de tudo e de não importa o quê, a defender com persuasão não importa qual causa.
Aparentemente, este ensino não tem qualquer conteúdo; ele não impõe senão um enciclopedismo vago e engenhoso. Na realidade, ele provoca uma mutação importante: as assembleias municipais, a Pnice, onde se reúne a assembleia popular, os mercados onde cada um discute livremente aquilo que quiser, os tribunais - todos eles constituem lugares novos, onde o cidadão pobre, sob a garantia da lei, pode atacar o rico ou o nobre, não para o espoliar mas para exigir que ele partilhe os seus privilégios para o maior bem de todos [.. .]» (Chatelet)
Esta nova educação que se faz sentir vai ser preenchida pelos Sofistas, que não eram mais do que homens instruídos que têm conhecimento a vários níveis do saber. Estes não só se diziam possuidores de grande sabedoria como se diziam ser capazes de a transmitir aos outros. Interessa­vam-se muito pela linguagem, sobretudo pela gramática e a semântica, pois sabiam a importância que as palavras ocupam no discurso e que o encadeamento lógico das ideias é fundamental. Mas para ensinar levavam os seus honorários e esta é uma das grandes críticas que Platão lhes dirige.
Assim, iam de cidade em cidade vendendo o seu saber.
«Os sofistas são professores de artes úteis: ensinam técnicas. Eles apresentam-se como pos­suindo o conhecimento de tudo aquilo que é útil ao homem e vendem esse saber a troco de dinheiro.
No primeiro lugar dessas técnicas ou artes úteis brilha a retórica, a arte ou habilidade de fazer triunfar uma opinião, qualquer que ela seja. Os sofistas são retóricos à procura de sucesso, não são filósofos à procura de sabedoria.
Estes professores não se preocupam com a verdade de uma tese, nem é isso que eles ensinam. Eles ensinam a arte de fazer triunfar uma tese: a arte de persuadir, de vencer, de triunfar.
Trata-se de uma espécie de desporto intelectual, de competições, de jogos oratórios: o auditório é um júri que concede os prémios. Os sofistas ensinam a arte de convencer o auditório e ganhar esses prémios.»
(J.Vilatoux)
Platão fez igualmente uma crítica cerrada a esta «arte», como os sofistas lhe chamavam:
«A crítica da sofística - a sombra negra de Platão - enche metade da sua obra. 0 sofista, para ele, é o homem que ensina a técnica - e a moral - do sucesso, do gozo, da afirmação de si; que nega as noções, profundamente solidárias, da verdade e do bem objectivos.
0 ensino sofístico forma o orador público, essa falsificação do homem de Estado verdadeiro; ou seja, o homem capaz de arrastar a multidão com argumentos baseados não no saber - e como o poderia ele fazer, ele que nada sabe, que troça do saber e contesta a sua existência? - mas na verosi­milhança e na paixão. O orador público -o político -é o homem da ilusão, oposta à realidade, o homem da mentira, oposta à verdade.
0 sofista é a falsificação do verdadeiro filó­sofo, como o tirano é a falsificação do verdadeiro chefe de Estado. Ainda mais: a tirania e a sofística são solidárias, como o são, por seu lado, a filosofia  e o reino da justiça na Cidade.
Parece-nos que não se compreenderá nada da atitude política de Platão se não o virmos descor­tinando no horizonte o espectro horrendo da tirania. Compreender-se-á mal mesmo a sua atitude filosó­fica se não se tiver em conta o facto de que, para ele, a tirania e a sofística são solidárias e que é o sofista que prepara o caminho ao tirano.» (Koyré)
Platão, Górgias, Fernanda Carrilho

01 novembro 2012

No pensar é que está o ganho!


«Pensar», respondi eu. Franziram o nariz. Perguntavam-me se veria algum caminho para a resolução das crises que nos assolam. As crises que por aí andam a torturar-nos a felicidade são de índoles várias. Temos a crise de valores, a crise económica, a crise política, a crise de fé, a crise de afectos. Todas elas estão relacionadas entre si e conspiram para nos atazanar o juízo. Daí, talvez que a urgência da pergunta esperasse da resposta uma solução concreta, prática, rápida.
A minha resposta era o oposto. Não por embirração, mas por convicção. Estará subvalorizada a importância do pensamento crítico, estruturado e criativo na resolução dos problemas que nos afligem. Talvez se deva ao ritmo frenético a que vivemos e que obriga à tomada de decisões imediata, que resulta, frequentemente, numa tomada de decisões irreflectida. Haverá, pois, quem valorize mais a acção, mas tenho para mim que acção sem pensamento que a sustente é tão estéril quanto o pensamento que não gera acção. 
(...)
O importante é deixarmos as certezas que tínhamos de lado e darmo-nos à interrogação. Não o poderemos fazer sozinhos, claro. Devemos acompanhar-nos de bons mestres. Os mais importantes são os livros. Mas todas as formas artísticas ajudam a desarranjar a mente para que a possamos voltar a arranjar depois. Será por isso que os inimigos do livre pensamento tanto tentam apequenar as artes e a cultura.
(Parte de texto de Ana Bacalhau publicado no Diário de Notíciasi)

01 outubro 2012

O que é a validade de um argumento?

A validade tem a ver com o seguinte:
Com a relação entre premissas e conclusão: num argumento válido premissas sustentam, apoiam ou justificam logicamente uma conclusão;
Com a  relação entre o valor de verdade das premissas e o valor de verdade da conclusão:

Um argumento válido é aquele em que se as premissas fossem verdadeiras e houvesse uma ligação logicamente correta, a conclusão seria necessariamente verdadeira (é impossível ser falsa – VALIDADE DEDUTIVA).
 ex.
Todos os abdus (A) são zeblins  (B)
Imal(C) é um abdu (A)
Logo, Imal (C) é um zeblim (B)

2. Um argumento válido é aquele em que se as premissas fossem verdadeiras e houvesse uma ligação logicamente correta, a conclusão seria muito provavelmente verdadeira
      (é improvável mas não impossível ser falsa – VALIDADE INDUTIVA).

ex.
Todos os cisnes observados até hoje são brancos
Logo,  todos os cisnes são brancos



Bem-vindo ao Alfafilos, ano letivo 2012-13!

09 junho 2012

Seremos bestas?

Uma célebre frase do Filósofo grego Aristóteles diz que “o homem é por natureza um animal político”. Pretendia este pensador salientar que faz parte da natureza humana viver e participar num estado e numa sociedade política. Pretendia também Aristóteles chamar atenção para a inevitalidade da ligação e integração do ser humano no Estado chegando a afirmar que nenhum homem se consegue colocar à margem do sistema social/político. Quem vivesse à margem do estado e do sistema social/político ou seria um Deus ou uma besta. Como explicar então que, sendo vítimas de um sistema social/político onde a ética, a justiça, a equidade, a solidariedade, a transparência, a verdade e o respeito são pura ficção, continuemos alheados da participação cívica e política? Como explicar a nossa inércia cívica, estando conscientes que essa atitude tem permitido que dezenas de responsáveis políticos/económicos/institucionais e seus correligionários continuem a levar o país para o abismo? Como explicar o nosso alheamento face à participação no sistema político e, sobretudo, face aos partidos que são o pilar (infelizmente frágil) da nossa democracia? Ora, aceitando que Aristóteles tem alguma razão, aceitando que não somos deuses, pergunto:  seremos bestas? 

Programação das AULAS DE FILOSOFIA - RTP Madeira com o Prof. Rolando Almeida

Podes aceder às aulas de Filosofia da RTP Madeira, lecionadas pelo Prof. Rolando Almeida (na foto), acedendo aos links abaixo.  TELENSINO (R...