17 setembro 2013
22 fevereiro 2013
Descartes
É, incontestavelmente, uma das figuras mais proeminentes da história do
pensamento humano. Foi matemático e foi, sobretudo, um grande
filósofo, tendo sido considerado o pai da filosofia moderna. Refiro-me a Descartes
que viveu apenas 54 anos, mas teve tempo
de viajar e aprender por muitos países da europa, num tempo e sociedade ainda
tolhida pelo feudalismo, por regimes políticos absolutistas onde a liberdade, a
criatividade e a descoberta eram ainda heresias sufocadas por uma Igreja
Católica inquisitória que não olhava a meios para atingir os seus fins
“sagrados”. É o único filósofo que se manteve, nos últimos 20 anos,
insubstituível nos programas de filosofia do Ensino Secundário. Muitas vezes me
interrogo porque é que filósofos como Descartes se mantêm como referências do
conhecimento humano durante séculos (Descartes viveu entre 1596 e 1650). No
entanto, há que reconhecer que além do seu importante contributo para
matemática, a filosofia e a ciência Descartes teve outro mérito não menos
importante: quis, no século XVII, reformar ou refundar todo o conhecimento
humano. Este assentava em princípios escolásticos da idade média onde o
espírito científico ou de investigação eram substituídos pelo ensino retórico e
livresco. Descartes percebeu que, naquele tempo, era fundamental demolir o
velho saber e reconstruir um “novo edifício do conhecimento” assente em bases
sólidas. Para essa empreitada considerou fundamental como princípio
metodológico a “dúvida” levada até às últimas consequências, sendo por isso
considerada uma dúvida hiperbólica que punha em causa não só as crenças mais
básicas do seu tempo mas também, por exemplo, a existência do mundo físico e, inclusivamente,
a do próprio Descartes.
08 janeiro 2013
Os Sofistas
Foram
grandes e inevitáveis as transformações que se deram no seio da cidade de
Atenas. Eram constantemente postos em confronto os novos valores e os
tradicionais.
Um dos
grandes problemas sentidos era relativo à educação dos jovens que, num futuro
breve, teriam de assumir a govemação.
«Qual
era, de facto, o modo de formação tradicional? Ensinavam-se os jovens a ser
bons cavaleiros, homens piedosos, respeitadores das divindades e da
recordação dos antepassados.
Isso
agora não basta! É preciso saber falar. A palavra é agora a técnica das
técnicas, aquela que permite a cada um - na assembleia, nos tribunais - fazer
valer o seu ponto de vista. É graças a ela que o cidadão pode defender a sua
posição e a sua independência e assim impor-se na cidade.
A
civilização da palavra - é assim que Aristófanes chama ao novo ensino.
Abrem-se escolas pagas, dirigidas por metecos, as quais suscitam uma afluência
considerável. Os mais ilustres destes mestres - Górgias, Protágoras, Hípias -
não têm outro programa senão ensinar os seus alunos a falar bem acerca de tudo
e de não importa o quê, a defender com persuasão não importa qual causa.
Aparentemente,
este ensino não tem qualquer conteúdo; ele não impõe senão um enciclopedismo
vago e engenhoso. Na realidade, ele provoca uma mutação importante: as
assembleias municipais, a Pnice, onde se reúne a assembleia popular, os
mercados onde cada um discute livremente aquilo que quiser, os tribunais -
todos eles constituem lugares novos, onde o cidadão pobre, sob a garantia da
lei, pode atacar o rico ou o nobre, não para o espoliar mas para exigir que ele
partilhe os seus privilégios para o maior bem de todos [.. .]» (Chatelet)
Esta nova
educação que se faz sentir vai ser preenchida pelos Sofistas, que não eram mais
do que homens instruídos que têm conhecimento a vários níveis do saber. Estes
não só se diziam possuidores de grande sabedoria como se diziam ser capazes de
a transmitir aos outros. Interessavam-se muito pela linguagem, sobretudo pela
gramática e a semântica, pois sabiam a importância que as palavras ocupam no
discurso e que o encadeamento lógico das ideias é fundamental. Mas para ensinar
levavam os seus honorários e esta é uma das grandes críticas que Platão lhes
dirige.
Assim, iam de cidade em
cidade vendendo o seu saber.
«Os
sofistas são professores de artes úteis: ensinam técnicas. Eles
apresentam-se como possuindo o conhecimento de tudo aquilo que é útil
ao homem e vendem esse saber a troco de dinheiro.
No
primeiro lugar dessas técnicas ou artes úteis brilha a retórica, a arte
ou habilidade de fazer triunfar uma opinião, qualquer que ela seja. Os
sofistas são retóricos à procura de sucesso, não são filósofos
à procura de sabedoria.
Estes
professores não se preocupam com a verdade de uma tese, nem é isso que eles
ensinam. Eles ensinam a arte de fazer triunfar uma tese: a arte de
persuadir, de vencer, de triunfar.
Trata-se
de uma espécie de desporto intelectual, de competições, de jogos
oratórios: o auditório é um júri que concede os prémios. Os sofistas ensinam a
arte de convencer o auditório e ganhar esses prémios.»
(J.Vilatoux)
Platão
fez igualmente uma crítica cerrada a esta «arte», como os sofistas lhe
chamavam:
«A
crítica da sofística - a sombra negra de Platão - enche metade da sua obra. 0
sofista, para ele, é o homem que ensina a técnica - e a moral - do sucesso, do
gozo, da afirmação de si; que nega as noções, profundamente solidárias, da
verdade e do bem objectivos.
0 ensino
sofístico forma o orador público, essa falsificação do homem de Estado verdadeiro;
ou seja, o homem capaz de arrastar a multidão com argumentos baseados não no
saber - e como o poderia ele fazer, ele que nada sabe, que troça do saber e
contesta a sua existência? - mas na verosimilhança e na paixão. O orador
público -o político -é o homem da ilusão, oposta à realidade, o homem da
mentira, oposta à verdade.
0 sofista
é a falsificação do verdadeiro filósofo, como o tirano é a falsificação do
verdadeiro chefe de Estado. Ainda mais: a tirania e a sofística são solidárias,
como o são, por seu lado, a filosofia e
o reino da justiça na Cidade.
Parece-nos
que não se compreenderá nada da atitude política de Platão se não o virmos
descortinando no horizonte o espectro horrendo da tirania. Compreender-se-á
mal mesmo a sua atitude filosófica se não se tiver em conta o facto de que,
para ele, a tirania e a sofística são solidárias e que é o sofista que prepara
o caminho ao tirano.» (Koyré)
Platão, Górgias, Fernanda
Carrilho
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